14 de maio de 2026 · João Bruno
IR do médico PJ: o erro de R$ 4.000 que ninguém te avisa
Médico com PJ paga IR como pessoa jurídica e como pessoa física. O ponto que faz a maioria pagar mais imposto do que devia — explicado por dentro.
Quando recebi o primeiro carnê-leão depois de abrir a PJ, eu já tinha pago imposto duas vezes em cima do mesmo plantão.
Demorei oito meses pra entender por quê. E quando entendi, descobri que tinha deixado uns R$ 4.200 parados pro Leão — dinheiro que era meu, que eu poderia ter no caixa, que sumiu porque ninguém me explicou uma coisa simples no começo.
Esse post é a explicação que eu queria ter recebido.
”Ser PJ” — o que isso significa, na prática
Quando você abre uma PJ médica, você cria uma segunda pessoa pros olhos da Receita. A pessoa jurídica (a empresa) e você (a pessoa física) são entidades separadas, com CNPJ e CPF próprios, e cada uma paga imposto de um jeito diferente.
O hospital, a prestadora, a cooperativa — todos eles passam a pagar a sua empresa, não a você. O dinheiro entra no caixa da PJ, paga os impostos da PJ, e depois transita pra sua conta pessoal de duas formas:
- Pró-labore — o “salário” que a empresa te paga, com IR e INSS retidos
- Distribuição de lucros — o que sobra depois de pagar tudo, e que é isento de IR
A maior parte do médico não entende essa segunda parte. E é exatamente aí que mora o erro caro.
As duas alíquotas que se cruzam
Olha esse cenário simplificado:
Plantão na prestadora: R$ 1.000 bruto. A prestadora paga sua PJ. A PJ paga os impostos dela e te repassa.
Cenário A — médico que não sabe ajustar:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Receita da PJ | R$ 1.000 |
| Imposto PJ (Simples Anexo III, ~15,5%) | -R$ 155 |
| Sobrou no caixa da PJ | R$ 845 |
| Médico transfere tudo como pró-labore | R$ 845 |
| IRPF na DIRPF (até 27,5%) | -R$ 232 |
| INSS pró-labore (11%) | -R$ 93 |
| Líquido no bolso | R$ 520 |
Cenário B — médico que entendeu o ajuste:
| Etapa | Valor |
|---|---|
| Receita da PJ | R$ 1.000 |
| Imposto PJ (Simples Anexo III, ~15,5%) | -R$ 155 |
| Sobrou no caixa da PJ | R$ 845 |
| Pró-labore mínimo (1 salário mínimo proporcional) | R$ 145 |
| IRPF + INSS sobre o pró-labore | -R$ 16 |
| Distribuição de lucros (R$ 700) — isenta | R$ 700 |
| Líquido no bolso | R$ 829 |
A diferença num plantão de R$ 1.000: R$ 309. Multiplica por 12-15 plantões/mês ao longo de um ano, e você chega facilmente a R$ 4.000-5.000 a mais no bolso só com esse ajuste.
E não é evasão. É planejamento legal.
Pró-labore: o ajuste que muda tudo
A regra é simples — mas a maioria dos médicos não conhece:
A Receita exige que sócio que presta serviço à própria empresa retire pró-labore. Mas não exige que seja o valor total. O mínimo legal é um salário mínimo proporcional à atuação.
Tudo que sobra depois do pró-labore + impostos pode sair como distribuição de lucros isenta.
O contador médio põe pró-labore alto “pra facilitar”. O contador que entende de médico põe no mínimo legal e te entrega o resto como lucro.
Pergunta que você pode fazer ao seu contador hoje: “Posso reduzir meu pró-labore pro mínimo legal e tirar o restante como distribuição de lucros?”
Se ele disser que não dá ou enrolar, vale pegar segunda opinião.
Qual regime tributário escolher
Pra médico autônomo virando PJ, três opções aparecem mais:
Simples Nacional — Anexo III
- Alíquota inicial: 6% (depois sobe com faturamento)
- Inclui todos os tributos num só boleto
- Pré-requisito: Fator R (folha de pagamento ≥ 28% da receita bruta)
- Se você não bate o Fator R, cai pro Anexo V (alíquota inicial ~15,5%)
Simples Nacional — Anexo V
- O default pra médico sem funcionário
- Alíquota inicial: 15,5%
- Mais simples de manter
Lucro Presumido
- Vale quando a receita anual passa de uns R$ 350-400 mil
- Tributação separada: PIS, COFINS, IRPJ, CSLL, ISS
- Alíquota efetiva fica entre 13,33% e 16,33% dependendo da cidade (ISS varia)
- Mais burocrático, mas pode pagar menos imposto
Regra prática:
- Faturando até ~R$ 300 mil/ano → Simples Anexo V
- Acima disso → simula no Lucro Presumido. Se ficar mais barato, muda
4 contas que todo médico PJ deveria fazer toda mês
Não é planilha gigante. São quatro números que dizem se você está rodando bem:
- Receita PJ do mês (quanto entrou no CNPJ)
- Despesas operacionais (contador, contas, sistema, anuidade CRM)
- Pró-labore que vai sair pra PF
- Sobra disponível pra distribuir como lucro
Se você acompanha esses quatro mensalmente, sabe exatamente quanto pode tirar como dividendo isento sem deixar o caixa da empresa no zero.
A maioria dos médicos só olha isso uma vez por ano, na DIRPF, e leva susto.
Quando vale contratar contador
Sempre. Médico não tem que estudar legislação tributária — tem que cuidar de paciente.
Mas vale escolher contador que entenda especificamente de médico PJ. Os critérios:
- Sabe explicar Fator R sem você ter que perguntar três vezes?
- Sugere distribuição de lucros como estratégia (não só quando você pergunta)?
- Manda relatório mensal — ou só aparece em março?
- Cobra pro-labore ou por hora? (Idealmente mensalidade fixa)
Preço médio em 2026: R$ 300-500/mês pra serviço completo de PJ médica em SP/MG/RJ. Capital pode ser mais caro, interior um pouco mais barato.
O que o NERVUS faz com isso
Eu construí o NERVUS porque vivi exatamente esse caos. Hoje o app:
- Separa automaticamente entradas da PJ × da PF
- Calcula o pró-labore ideal baseado no Fator R do seu mês
- Mostra quanto cabe sair como dividendo sem deixar caixa negativo
- Roda no Chat — você fala “lança plantão de R$ 1.500 no UPA hoje” e ele lança certo no lugar certo
Não substitui contador. Te dá o que mostrar pro contador — e o que cobrar dele.
Próximos posts da série:
- (em breve) “Distribuição de lucros: o passo-a-passo legal de tirar dinheiro isento da PJ”
- (em breve) “Fator R do médico: como saber se você bate (e o que fazer se não bater)”
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